CHUMBOS E CRITÉRIOS (II)

Abril 22, 2008

Vamos até ao ensino básico obrigatório…

A ministra de educação reclama que há muitos chumbos em Portugal.

Os fazedores de opinião dizem que os alunos portugueses são uns ignorantes, impreparados de nível terceiro-mundista e que envergonham o país no campeonato PISA, entre outros impropérios.

Alguma imprensa e alguma opinião pública acusam os professores de não ensinarem nada às crianças, que são uns privilegiados com ordenados chorudos, que têm 3 meses de férias, que são professores porque não sabem fazer mais nada, que a maioria dos profissionais não o é por vocação.

Os importadores e admiradores de sistemas educativos estrangeiros gastam a Finlândia com elogios, talvez merecidos, e gastam o Chile com remoques, talvez injustos. O nosso sistema é que o pai de todos os males.

Outra parte da opinião pública não diz nada ou quase nada, porque os professores ainda vão dando muito jeito. Para dizer bem, é melhor estar calado.

Os professores dizem que têm de ser tudo, desde pai e mãe, padre, psicólogo, confessor, polícia, juiz, advogado, actor, ama-seca, baby-sitter, paramédico,… e professor.

Afinal, esta parece ser a estória tipo o velho, a criança e o burro.

Deixo interrogações:

Quais os problemas resultantes de se decretar que na escolaridade obrigatória não haja chumbo? O que é que o País ganha com as reprovações? Não seríamos os únicos na OCDE.

O Governo gostaria de apagar das estatísticas a reprovação da escolaridade obrigatória, mas quer que sejam os professores os portadores do anátema do facilitismo.

Não há a coragem de assumir a decisão da não retenção. Ficará ao critério do professor passar ou reprovar, Se reprova, reprova muito. Se passa, é acusado de laxismo.

Preso por ter cão, preso por não ter.


Acordo na avaliação, importante?

Abril 11, 2008

Qualquer (des)acordo na reunião de hoje será uma má solução. Pode avançar-se em questões de conveniências, em solidariedade na ilegalidade, o ME a querer descalçar a bota com a ajuda da Plataforma Sindical nesse peditório, a troco de uma ou outra benesse.

Neste momento é maior o problema do lado do ME que do lado dos professores. Talvez não seja mesmo má ideia aquela de exigir o rigoroso cumprimento das leis, e, em especial o DR 2/2008, mostrando à saciedade que aquele normativo conduz a uma desvalorização do trabalho com os alunos, valorizando a burocratização, o relatorismo, o grelhismo, o checklistismo. Mostrar-se-á facilmente a fragilidade legislativa que o sustenta, manejando o código de procedimento administrativo, Qualquer processo avaliativo tem que se basear, entre muitas coisas, na boa-fé dos intervenientes, o que dificilmente virá a ocorrer nesnte processo.

Preso por ter cão, preso por não o ter.

Será talvez a forma de se demonstrar que as maiores alterações no sentido da qualidade se situam na autonomia responsável das escolas. Ninguém acredita que a melhoria da escola se consiga por mais decreto ou menos decreto.

Com efeito, parece-me que para se trabalhar melhor nas escolas nem era preciso mais legislação.

As escolas serão capazes de determinar caminhos estruturados em direcção aos bons e efectivos resultados dos seus alunos, objectivo estratégico e fundamental .

Às tantas, o melhor seria haver menos normativos centrais, deixar as escolas crescer, respirar.

A legislação tem sido nos últimos anos mais atrofiadora que mobilizadora positivamente. Deste ME, só normativos castradores para todos, alunos, alunos com necessidades educativas especiais, professores, pais e encarregados de educação. Basta atentar ao Estatuto do Aluno, ao Estatuto da Carreira Docente, ao Decreto da Avaliação.

Além de colocar tal quadro legislativo, ainda destrói a grande alma das escolas, aquela que, bem ou mal, tem trazido as escolas portuguesas até aqui. Não tornou os professores menos bons em melhores, e conseguiu destruir ou fragilizar uma grande quantidade de professores que, teremos de reconhecer, não são merecedores de tão desatinado tratamento.

Pelo lado legislativo, pela desconfiança, pela desautorização, pelo desprezo que tem derramado sobre as escolas, este ME não merece muitos dos professores, em especial, aqueles que vivem para os seus alunos até à exaustão.

O maior acordo para os professores é o que leva ao ECD para destruir quer a fractura entre professores e quer o engodo dos professores titulares.

Claro que eu não acredito nisto, pois não creio que haja a grande coragem do reconhecimento do próprio erro e, depois, a vontade política de o corrigir.

O ME durante 2/3 anos deveria deixar as escolas em paz e a Administração da Educação pedir contas ao fim desse período.

Que lirismo!