Males que vêm por bem

Março 24, 2008

O caso do vídeo da Escola Secundária Carolina Michaëlis é um mal que vem por bem. A sua inopinada divulgação provavelmente por um dos mânfios da turma está a prestar um excelente serviço à educação e ao país.

À colega, toda a solidariedade. Ela encarna aqueles que foram violados por miúdos badamecos, que se acham donos do mundo e com os direitos à delinquência sem fronteiras.

À aluna, aquela de ganga azul, coitada, aquela, que eu não conheço se Isabel ou Mafalda, talvez Joana, provavelmente nunca mais vai esquecer este episódio e quero crer que ela está arrependidíssima, Deve ser punida, imperdoável a sua atitude, mas a ela também o meu obrigado. Ela incarna uma certa camada da população escolar que não controla os seus apetites delinquentes. Mas eles existem, só na cabeça de alguns é que não. Não na cabeça de alguns pais que produziram umas jóias imensas, mesmo professores geraram crianças como a de calças de ganga azul, na cabeça de alguns pedagogos que acreditam que com restrições não explicados o mundo das crianças está a ser violado, na cabeça de muita gente estas crianças são como os gambozinos, não existem. Os professores sabem que eles existem.

Ao miúdo que se sentiu um Kubrik por trás do telemóvel, o Fred ou Dred ou Jorge, sei lá, foste um safardana. A tua pena deve ser igual à de calças de ganga azul, agravada pelos incentivos à javardice dos teus cúmplices. Não mereces perdão. De qualquer modo, obrigado pelo teu impensado acto de dispôr no querido e venenoso You Tube a tua prima obra. Conseguiste pôr à bulha todo este país em volta de uma causa que teimava não entrar na agenda da educação em Portugal. Tens sorte em os americanos terem-te batido na corrida, senão terias a CNN a disputar os direitos de publicação.

Aos portugueses, professores, aproveitemos, desfrutemos os factos.


Deus, Pátria e Autoridade ou talvez não

Março 24, 2008

Vieira da Silva

Nós, professores, acagaçámo-nos, há muito, perante a ausência de referentes reconhecidos e inquestionáveis. Deixámo-nos levar pelos receios do que os pais poderiam desencadear, deixámo-nos levar pela insegurança da democracia, deixámo-nos levar pelas mil e uma maneiras de olhar para um facto e receámos errar, de meter a pata na poça.

Acerca deste caso do vídeo já ouvimos lançar culpas e defesas sobra a aluna, sobre a professora, sobre os pais da aluna, sobre a Universidade que não deu preparação à professora para lidar com estas perturbações, sobre a avó da aluna, sobre o estatuto do aluno, sobre Maria Lurdes Rodrigues e Valter Lemos, sobre Pedro Duarte, sobre a Carolina Michaelis, sobre os telemóveis que filmam, sobre… e a lista podia continuar interminável

Reparei que a sala onde decorreu a cena tem uma zona elevada e que era a habitual zona do professor, do mestre. Não é importante o que essa palco representa agora, mas é importante lembrar o que representou.

A autoridade reconhecida do mestre, outorgado pela excelência do seu serviço. Uma autoridade como essa não se entrega, em bandeja, a políticos, religiosos, comerciantes ou corretores da bolsa, dirigentes de clubes ou a jornalistas. Mesmo a juízes tenho dúvidas que mereçam este tipo de autoridade. Se nada tenho contra nenhum em particular, o facto de o estado de direito ou do direito ser um dos opositores do estado da justiça e da verdade, leva-me a ter essa dúvida. O juiz deveria merecer incondicionalmente essa autoridade. De qualquer modo, o juiz intervém sobre factos consumados, sobre o foi. O professor intervém sobre o é e sobre o será.

 A democracia portuguesa ainda não arranjou substitutos para os pilares do fascismo salazarista: Deus, Pátria e Família ou Deus, Pátria e Autoridade.

Algumas ideias quiseram assumir-se como pilares.

  • a liberdade de dizer, de pensar, de exprimir, de ser, mas com uma delimitação pelo qual se exerce, qual pescadinha de rabo na boca.

(Cria muitas situações sem responsabilidade e sem responsabilização)

  • a expressão pelo voto

(de 4 em 4 anos lá vai quem vai, correndo o risco de criar ditaduras de maioria, com o espezinhar de tudo o que mexa, dos seus próprios apoiantes);

  • o mercado é quem manda

(esquecendo as pessoas, deixando o mercado funcionar, vão-se construindo negócios como a saúde, educação e a destruindo do estado social);

  • e o estado direito

(bem diferente do estado de justiça, requerimento vai, escuta não válida, juiz que se aninha, acusado com diarreia, o malabarismo do direito e a justiça que espere)

são criações para gerar a ilusão do que amamos, a democracia.

Se algum exercício carece de uma investidura de autoridade é o ser professor.

Talvez seja a profissão que está em melhores condições de a exercer.

O professor já não exerce de cátedra, Não exerce por ter sido dela destituído e ele próprio terá ajudado a essa destituição.

A matemática é uma ciência que atravessa a vida humana, desprezando os eleitoralismos, as coisas não se decidem por votações de braço no ar. Ela talvez seja uma das ciências que molda a figura do professor no sentido que a argumentação, o rigor, a justificação, a demonstração, a conjectura,…,fazem parte da imagem do ser professor.

O professor ideal é isento, imparcial , rigoroso, dispõe da capacidade de argumentação, não é confessional, não é racista, é tolerante para as diferenças, é-lhe exigido que seja um modelo de ética, é tanta coisa…

Não me importo de assumir uma superioridade em relação aos alunos que me cabem. Até sou superior quando aprendo com eles.

Concluindo, a democracia tem de constituir nos seus professores um dos seus pilares.

O professor tem que voltar a ser reconhecido como o Mestre.

Não há propriamente um poder divino para outorgar esta autoridade, mas os professores têm que a assumir dada por si mesmos, pelo juízo que faz das necessidades da democracia, È um auto-valor.