Observação de aulas

Maio 23, 2008

O DR 2/2008 prevê que todos os professores devem ter pelo menos 3 aulas assistidas, cada uma delas em unidade didáctica diferente,

O quintal de cada um de nós prepara-se para ser invadido, criando uma situação novíssima e de ruptura. Em termos de procedimento, a assistência a aulas constitui uma das maiores rupturas com o passado

Muitos professores, incluindo-me a mim próprio, durante largos anos, fizeram sentir que a avaliação de professores era uma obra inacabada, incompleta, imperfeita, eventualmente inverdadeira.,ao não passar pela observação de aula, ainda que de forma pontual, A lei , embora não o impedisse, também não entreabria a porta da sala de aula.

O grande objectivo de assistir a aulas, em minha opinião, não é a recolha de dados para julgar o observado. O enfoque da observação deve situar-se na reflexão partilhada acerca de práticas em ambiente de aula, conducentes ao desenvolvimento profissional do professor e, por efeito, conducentes à melhoria das aprendizagens.

Face a esta premissa e tendo em conta que o coordenador observador é um par do observado, pode não ter sentido repetir observações sobre alguns professores. Qual o sentido de, apesar do coordenador reconhecer que um colega observado é muito melhor que ele, prosseguir com as observações? Só para dar cumprimento à lei? Aplicar a todos a mesma medida de observação pode não ser uma boa medida para rentabilizar tempo e para o direccionamento essencial da acção da observação.

Podem ocorrer situações em que um professor necessite de maior ajuda e acompanhamento que outro e, por isso, deva ter mais aulas assistidas. Refira-se que a legislação ao apontar chapa 3 para cada professor e repartindo uma por cada unidade didáctica, subverte as características fundamentais da observação de aulas para a avaliação de professores. Parece querer marcar três dias de juízo em vez de marcar oportunidades de reflexão sobre a prática docente. Parece óbvio que ao querer conhecer-se um professor fosse mais propositado observá-lo num processo continuado do que 3 momentos sincopados, descontextualizados.

Estes cortes são contra aquilo que os professores aprendem e praticam na avaliação dos seus alunos. Qual a razão de a avaliação destes não se reduzir a três testes? Podem não dar uma imagem da progressão e podem não ser oportunidades suficientes para revelar todas as dimensões do seu crescimento. Por isso, a diversidade de instrumentos e de fontes integradas em avaliação contínua.

O facto de constar na lei e de estabelecer uma forma igualitária, não significa, para mim, que esta disposição seja a melhor forma de rentabilizar esta novidade prática, face aos objectivos últimos da avaliação docente.

Por tudo isto, entendo que, durante o ano de 2009, haverá assistência a aulas para todos os professores, não necessariamente em igual número para todos, com o propósito firme de uma avaliação formativa.

Durante este período, o processo analítico das práticas conduzirá à definição dos grandes vectores de observação, Um deles será certamente o rigor científico-pedagógico do processo de ensino e da instrução. Tendo como coordenador o Grande Avaliador, este vector pode ser absolutamente descurado, por haver a possibilidade real de o observador nada ou muito conhecer do conteúdo científico em observação.

Em termos de procedimentos e papelada, não preconizo o envólucro, tipo estágio, da apresentação da documentação. A simplicidade de processos e de documentação entre gente crescida e profissional, deve estar presente neste relacionamento formativo.


Participação de professores na avaliação do Coordenador

Maio 23, 2008

O papel de um tal professor designado por coordenador é extremamente ambíguo, na torrente legislativa deste ano de 2008. Se em alguns contextos, parece que a legislação se refere ao que apelidamos de mega ou de Grande Coordenador, noutros parece referir-se ao actual coordenador de departamento ou mesmo ao delegado de grupo, que pode chamar-se de pequeno coordenador. Por exemplo, quando se quer falar da grande avaliação, parece que o dono da bola coordenadora é o Grande Coordenador, quando se fala de coordenação pedagógico e de currículo parece ser o pequeno coordenador. O surgimento daquele Grande Avaliador, por departamento de recrutamento, ocorre num despacho de delegação de competências que, convenhamos, não será o melhor espaço legislativo para definir as funções de coordenação.

Acrescente-se o facto de, no novo regime jurídico de gestão de escolas, os coordenadores serem nomeados pelo Director ou Grande Chefe. Então, os Grandes Avaliadores agora eleitos, não se sabe bem ao abrigo de que normativo ou regulamento, quando houver Director, devem pôr o lugar à disposição do Grande Chefe que nomeará os novos Grandes Avaliadores, a seu gosto, nada impedindo que até possa designar os existentes actualmente. Mas não deixarão de ter uma aura diferente da que têm hoje. Aqueles, agora, traduzem a expressão de um grupo de professores, depois traduzirão a vontade do Director.

A maior parte das escolas viverá esta situação a partir do próximo ciclo de avaliação.

Daqui decorre que, pelo menos na forma da investidura, os coordenadores do ano de 2008/9 não serão os mesmos que em 2009/2011.

Atendendo que este próximo ano é ano de apropriação, o tema da participação dos professores na avaliação do coordenador, deverá ser discutido no próximo ano, criando-se então uma solução consensualizada.

No sentido da apropriação, o Grande Coordenador não é, de todo, o supra-sumo da eficácia e da sabedoria. O know-how acerca do papel de coordenador começará a ser construído da mesma forma que se constrói o papel do avaliado. O próximo ano é um tempo de construção de papéis, de desempenhos, de definição de práticas.

No final do próximo ano 2008/2009, os departamentos têm a obrigação de apresentar a posição dos professores, completamente sufragada numa reflexão e em práticas assumidas que permitirão ciclos futuros de avaliação suportados em bases aceites e apropriadas.

Do mesmo modo, deve ser remetida para o próximo ano a reflexão acerca dos termos em que a participação dos Grandes Pais se deve processar. Sobre este assunto, talvez seja pertinente pedir a estes uma reflexão acerca do que acham ser importante na consulta, caso ela venha a ser solicitada. Contudo, deixaria ficar uma marca de análise sobre este assunto.

Caso os resultados escolares dos alunos venham a relevar na classificação do professor, os pais são parte interessada na avaliação, podendo criar fonte de pressão sobre o trabalho de professores e uma via para um acerto de contas que pode não abonar a independência do trabalho do docente. Poder assistir-se à situação do professor que dá boas classificações pedir a avaliação do encarregado de educação que poderá ainda reforçar uma classificação eivada, porventura, de facilitismo, enquanto outro professor, que sofrendo os efeitos de os resultados não serem muito bons apesar do seu enorme trabalho, poderá não ver o reconhecimento satisfeito e, por isso, decidir não arriscar com o pedido de participação de Pais. No ensino secundário, talvez fosse pertinente ponderar a participação dos alunos. Pelo menos, os alunos estão na escola e os pais estão em grande parte ausentes da vida real da escola e das vivências dos seus filhos.


Avaliando…a avaliação (II)

Maio 19, 2008

As diferenças entre classificações internas e externas são um bom discriminador?

É muito frágil este separador e por vários motivos.

O primeiro é não ser aplicável a todos os professores. Há disciplinas que nunca apresentam alunos a provas externas o que abrange um vasto número de professores. Dentro do mesmo grupo disciplinar, no mesmo ciclo de avaliação há professores que não são avaliáveis dentro deste parâmetro, Como os ciclos são de dois anos, os professores de disciplinas trienais, em cada três ciclos não são avaliados por uma ou dias vezes. Há ainda aquelas disciplinas de grupo que não têm exame ou aqueles anos de escolaridade em que há professores que leccionam sempre e outros que nunca leccionam o ano terminal.

Se a esta não universalidade, acrescentarmos o convicção de que o professor que prepara turmas em ano de exame são mais empenhados , corremos o risco de penalizar que mais trabalha para o sucesso efectivo.

Fazer depender a avaliação dos resultados dos alunos não é caminho para uma auto-regulação virtual de desempenho? Qual é o problema de aprovar um aluno que deveria ficar retido? Reter é auto-punir, aprovar é manipular.

Imaginemos um cenário como aquele que já vimos descritos de o professor prometer aos seus avaliadores que vai ter 98% de aprovação. Se este professor não tiver que levar os seus alunos a provas externas, à sua actividade docente pode acrescentar uma viola, cantarolando a caminho de uma classificação excelente naquele parâmetro.

Mesmo no caso de não haver discrepância, como se pode garantir que o sucesso é atribuível à acção do professor, mas do explicador, do ambiente familiar, do grupo de amigos, do próprio aluno. Já encontrei alunos que , acho eu, seriam bons quer tivessem o melhor quer tivessem o pior professor da escola

Não é credível um parâmetro deste tipo na avaliação.

Outra coisa bem diferente é o compromisso, o empenhamento e a preocupação do professor em ajudar a sua Escola a alcançar objectivos sustentados no sucesso escolar e de cidadania dos seus alunos. Este não sendo problema de nenhum professor em particular é problema de todos, sem excepção particular.

 

Taxa de abandono escolar

A par da ausência de uma definição de abandono escolar como é possível numa escola de largas dezenas porventura algumas centenas de professores serem pedidas contas individuais a cada professor?

Ninguém duvida que o abandono escolar não é um problema que diga respeito em exclusividade à escola. Qual o valor depositado na escola por vastas famílias portuguesas? Há legitimidade ou não para muitos pais não descortinarem valores na escola para além do desemprego qualificado ou do emprego sub-alimentado? Merece a escola aquela confiança que os nossos governantes apregoam como sendo o camonhop para o sucesso? É legítimo ou não que haja famílias a não embarcar em direcção ao mar da felicidade das Novas Oportunidades?

Em Portugal, a sociedade não consegue fazer acreditar que a Escola é o caminho mais válido e sustentado para uma vida melhor.

Que a Escola não se pode demitir da responsabilidade de fazer passar esta mensagem e de a tornar viva ninguém tem dúvidas, mas responsabilizar cada professor, em contabilidade individual, pelo abandono é fazer depender de cada português a culpa do deficit excessivo. Que culpa tenho eu, individualmente, do estrambalho das contas públicas? Claro que participo, à força, na recuperação das contas públicas, mas Teixeira dos Santos não se lembrou de me vir pedir contas da minha contribuição para a redução do deficit.

 

Conclusão

Há objectivos importantes de expressão colectiva que não têm sentido na responsabilidade individual, embora se tornem exequíveis por accção de todos os intervenientes.

Objectivos de escola sim, objectivos individuais não.

Empenhamento e comprometimento de todos, sim. Premiar os destaques individuais nestas batalhas, sim.

Combater o laxismo, o desleixo, o-não-importa, a demissão, sim.


Avaliando…a avaliação (I)

Maio 19, 2008

Avaliação de professores – avaliação de uma missão específica

O avaliocionismo está a tomar conta de forma obssessivo-compulsiva da administração pública de uma forma punitiva ou, pelo menos, fundada na crença que é preciso caçar os delinquentes cidadãos que violem a lei. Basta vermos os objectivos policiais traduzidos em termos de tantas multas, de tantos processos, de tantas apreensões, de tantos autos, de tantas…para criarmos o senso de que é mais importante para a administração a quantidade de punições que a quantidade de apoios prestados aos serviços e aos cidadãos. Esta é a cultura ASAEANA. Sem defender a impunidade, vou achando que o reforço positivo é mais importante que o reforço negativo.

(Para o nosso primeiro ministro : não pega a miserável desculpa de dizer, Bom, se por acaso infringi alguma norma ou lei, peço desculpa e não volta a acontecer pois vou deixar de…Infantil em regra, miserável num primeiro-ministro…Estou a ver os cidadãos portugueses a pedir desculpa se infringiram alguma regra de trânsito, de fuga ao fisco, de fumar num bloco operatório,…, pois não volta a acontecer…)

Voltando…

A missão do professor é ensinar pessoas, não é aplicar normativos ou regulamentos. O resultado da sua missão não depende exclusivamente de si. O aluno e os seus interesses, o ambiente familiar e social, as suas ambições, a sua concepção de sucesso, etc. uma miríade de factores que tornam a experiência de ensinar 100 alunos em 100 experiências diferentes. Uma missão bem diferente de atender 100 cidadãos que procuram na repartição de Finanças o caminho para a declaração de rendimentos. Cada caso pode ser um caso, mas a cartilha dará a resposta.

Sendo a tarefa de ensinar tão singular, como se pode avaliar o professor?

Podem elencar-se alguns parâmetros de avaliação:

 

Quantas faltas deu?

Isto é um parâmetro de funcionário, não é específico de professor. Mas, já se deram conta que o melhor professor da escola que teve uma avaria no seu veículo numa manhã quando se dirigia para o trabalho e não chegou a horas de entrar a tempo da primeira aula, está afastado da possibilidade de ser classificado com excelente? Não será esta uma avaliação asaeana?

Um professor que nunca falta, o que é uma qualidade a valorizar, é necessariamente melhor professor que outro que, de vez em quando, falta?

 

Quantos alunos aprovou? Quantos alunos reprovou?

Pode ser um indicador significativo, mas não discriminador da qualidade do professor.

Alguém de bom senso quererá comparar profissionais de Educação Física, Educação Visual e Tecnológica com Fisico-Quimica ou Matemática?

Mesmo dentro da mesma disciplina, há inexplicáveis diferenças entre professores ao nível do rigor e da exigência. Uns menos exigentes aprovam mais facilmente que outros mais exigentes. Poderá questionar-se a razão de cada um deles.

Alguém de bom senso quer comparar a exigência posta nas decisões de alunos das ofertas das Novas Oportunidades, Cursos Profissionais com os Cursos Gerais?

Aprovar alunos em ano de transição tem o mesmo peso de aprovar em ano de conclusão?

Deve haver diferenças nas exigências? Tudo leva a crer que sim, mas deverão os professores ter classificação diferenciada por esse motivo?

Acresce a esta argumentação, o facto legal de ser o Conselho de Turma o responsável pela aprovação de classificações que ditam os resultados finais. Não se pretende alijar responsabilidades, mas as leis ainda têm algum valor ou não será assim?