Vieira da Silva

Nós, professores, acagaçámo-nos, há muito, perante a ausência de referentes reconhecidos e inquestionáveis. Deixámo-nos levar pelos receios do que os pais poderiam desencadear, deixámo-nos levar pela insegurança da democracia, deixámo-nos levar pelas mil e uma maneiras de olhar para um facto e receámos errar, de meter a pata na poça.
Acerca deste caso do vídeo já ouvimos lançar culpas e defesas sobra a aluna, sobre a professora, sobre os pais da aluna, sobre a Universidade que não deu preparação à professora para lidar com estas perturbações, sobre a avó da aluna, sobre o estatuto do aluno, sobre Maria Lurdes Rodrigues e Valter Lemos, sobre Pedro Duarte, sobre a Carolina Michaelis, sobre os telemóveis que filmam, sobre… e a lista podia continuar interminável
Reparei que a sala onde decorreu a cena tem uma zona elevada e que era a habitual zona do professor, do mestre. Não é importante o que essa palco representa agora, mas é importante lembrar o que representou.
A autoridade reconhecida do mestre, outorgado pela excelência do seu serviço. Uma autoridade como essa não se entrega, em bandeja, a políticos, religiosos, comerciantes ou corretores da bolsa, dirigentes de clubes ou a jornalistas. Mesmo a juízes tenho dúvidas que mereçam este tipo de autoridade. Se nada tenho contra nenhum em particular, o facto de o estado de direito ou do direito ser um dos opositores do estado da justiça e da verdade, leva-me a ter essa dúvida. O juiz deveria merecer incondicionalmente essa autoridade. De qualquer modo, o juiz intervém sobre factos consumados, sobre o foi. O professor intervém sobre o é e sobre o será.
A democracia portuguesa ainda não arranjou substitutos para os pilares do fascismo salazarista: Deus, Pátria e Família ou Deus, Pátria e Autoridade.
Algumas ideias quiseram assumir-se como pilares.
- a liberdade de dizer, de pensar, de exprimir, de ser, mas com uma delimitação pelo qual se exerce, qual pescadinha de rabo na boca.
(Cria muitas situações sem responsabilidade e sem responsabilização)
- a expressão pelo voto
(de 4 em 4 anos lá vai quem vai, correndo o risco de criar ditaduras de maioria, com o espezinhar de tudo o que mexa, dos seus próprios apoiantes);
- o mercado é quem manda
(esquecendo as pessoas, deixando o mercado funcionar, vão-se construindo negócios como a saúde, educação e a destruindo do estado social);
- e o estado direito
(bem diferente do estado de justiça, requerimento vai, escuta não válida, juiz que se aninha, acusado com diarreia, o malabarismo do direito e a justiça que espere)
são criações para gerar a ilusão do que amamos, a democracia.
Se algum exercício carece de uma investidura de autoridade é o ser professor.
Talvez seja a profissão que está em melhores condições de a exercer.
O professor já não exerce de cátedra, Não exerce por ter sido dela destituído e ele próprio terá ajudado a essa destituição.
A matemática é uma ciência que atravessa a vida humana, desprezando os eleitoralismos, as coisas não se decidem por votações de braço no ar. Ela talvez seja uma das ciências que molda a figura do professor no sentido que a argumentação, o rigor, a justificação, a demonstração, a conjectura,…,fazem parte da imagem do ser professor.
O professor ideal é isento, imparcial , rigoroso, dispõe da capacidade de argumentação, não é confessional, não é racista, é tolerante para as diferenças, é-lhe exigido que seja um modelo de ética, é tanta coisa…
Não me importo de assumir uma superioridade em relação aos alunos que me cabem. Até sou superior quando aprendo com eles.
Concluindo, a democracia tem de constituir nos seus professores um dos seus pilares.
O professor tem que voltar a ser reconhecido como o Mestre.
Não há propriamente um poder divino para outorgar esta autoridade, mas os professores têm que a assumir dada por si mesmos, pelo juízo que faz das necessidades da democracia, È um auto-valor.